segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Sexualidade humana e o jogo do amor

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Angela Vidal Gandra Martins é doutora em Filosofia do Direito (UFRGS) / Sócia Advocacia Gandra Martins

Recentemente publiquei um artigo na Folha de São Paulo (2/11/17) a propósito das exposições do Santander, MASP e MAM, denominado “Sexualidade Humana em Leilão”, percebendo através do retorno, como não se pode subestimar a natureza humana em seus anseios de amor, beleza e verdade.
Quando me solicitaram um artigo para este jornal, para tratar do tema, pensei que aqui poderia apontar ainda mais alto, “explicando a parábola” para aqueles que têm ouvidos para ouvir e efetivamente o desejam. Passamos à reflexão.
Uma sociedade que começa a apresentar uma exaltação do corpo, que, paradoxalmente o despreza, sinaliza que estamos perdendo de vista o seu verdadeiro papel no jogo do amor. Nesse sentido, podemos comparar este desafio de forma análoga, como uma sucessão de etapas que vão evoluindo progressivamente e que devem ser respeitadas para que se ganhe a partida decisiva.
De fato, devido à estruturação antropológica do ser humano, o primeiro movimento rumo ao amor toca a sensibilidade, através de uma atração física, que faz a diferença. Não é, porém quimicamente pura, no sentido de ser puramente sexual - ainda que a hiperestimulação pode neutralizá-la, tornando-a indiferente - mas uma reação que aponta para alguém que se distingue dos demais e pode ser único para nós.
Porém, parar nesse estágio não seria propriamente humano. É preciso intelectualizar o que é mais do que instinto, personalizando a atração para atingir a pessoa, já que um conhecimento sensorial precipitado obstaculiza o acesso ao coração. O diálogo humano é o caminho. Sexualização e mutismo é próprio de animais.
A partir do conhecimento, a escolha, para que o romance progrida. Porém, como esta não é definitiva, as manifestações de amor devem ser proporcionais: de carinho, não de posse.  Os limites permitem aprender a amar a pessoa como tal, e não seu corpo, por auto interesse. Amadurecida a decisão, de forma livre e responsável, já é possível comprometer-se. Por essa razão, apossar-se de um corpo antes disso é dissociá-lo da pessoa. Se falta maturidade para assumir as consequências de um ato em sua globalidade, não há maturidade para o ato. Nesse sentido, se há incapacidade para conviver com defeitos, dividir contas, educar filhos, etc., também não há preparação suficiente para as relações, e estas se reduzirão a uma mentira existencial mútua, acabando por separar os que supostamente se amavam.
Assumir um corpo é poder assumir uma pessoa em toda sua riqueza e ser-lhe fiel. Efetivamente, em humano, entregar um corpo é entregar uma alma. O amor entre homem e mulher não é extensivo, mas exclusivo e cresce verticalmente, não horizontalmente, no sentido de dilatar a capacidade humana de amar incondicionalmente, perpetuando-se nos filhos.
Um mundo hipersexualizado, que antecipa desordenadamente as etapas, desestrutura o jogo e as vitórias que se poderiam celebrar individual e socialmente, frustrando profundamente as expectativas de amar e ser amado de forma única, e o encontro do verdadeiro parceiro, ofuscado nas múltiplas experiências superficiais.
A banalização do corpo é somente um sinal do desrespeito às regras do jogo, enraizada em uma crise de amor, que, por razões principalmente econômicas, vai proclamando como natural o infra-humano, com o perigo de nos acostumarmos com isso. Porém, a grande questão é o custo moral e afetivo que acarreta. Como afirma o antropológo Ricardo Yepes: “É uma crise que as próximas gerações terão que resolver, e o farão melhor que nós porque terão sofrido pessolmente as consequências. Porém, o ideal seria que desde já, lhes poupássemos essa terrível experiência”.
Nesse sentido, sou mais otimista, acreditando que é possível desde já fomentar uma nova cultura e virar o jogo!
Jornal "O São Paulo", edição 3178, 6 a 12 de dezembro de 2017.

A Dignidade da Pessoa Humana

Wagner Balera

Numa de suas mais conhecidas mensagens de rádio, levada ao ar em dezembro de 1944, Pio XII assinalava que a dignidade do homem é a dignidade da imagem de Deus.
Esse mesmo mote é utilizado na Declaração Conciliar Dignitatis Humanae, sobre a Dignidade Humana, de 7 de dezembro de 1965, relativa à liberdade religiosa, condição mesma de preservação da dignidade humana.
O homem, para além de sua condição natural é pessoa e, enquanto tal, revestido em dignidade e direitos, como proclama solenemente a Declaração dos Direitos Humanos, de 1948.
Aliás, como assinalara São João Paulo II em discurso que proferiu perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1979, toda a atividade política – nacional ou internacional – só tem sentido porque: provém "do homem", se exercita "mediante o homem" e é "para o homem". Se tal atividade se aparta desta fundamental relação e finalidade, se chega a tornar-se, nalgum sentido, fim para si mesma, então perde grande parte da sua razão de ser. E mais ainda, ela pode tornar-se mesmo fonte de uma específica alienação; e pode tornar-se estranha ao homem; pode cair em contradição com a própria humanidade. 
 A dignidade é a fórmula feliz pela qual a unidade da pessoa (alma e corpo) revela sua particular expressão, pela qual um ser ligado materialmente ao corpo é, igualmente espiritualmente voltado para o transcendente.
Importa referir, ainda, que da dignidade derivam, a liberdade e a igualdade. É verdade que a primeira pode precipitar o homem no terreno dos vícios pelos quais será responsabilizado, igualmente, no corpo e no espírito. Mas é igualmente verdade que a liberdade pode e, nas mais das vezes, assim atua, fazer com que o homem exercite as virtudes e faça render seus talentos, poucos ou muitos, seguindo à risca a lei moral e aceitando a distinta maneira de ser até mesmo daqueles que lhe são claramente opostos.
A dignidade, como sublinha o Compêndio da Doutrina Social da Igreja exige o saudável reconhecimento do pluralismo social. É inadmissível que sejam restringidas as expressões de pensamento d e de ação dos outros, porque não pensam ou agem da mesma maneira que alguma maioria ocasional.
A marcante proclamação, levada a efeito pelas Nações Unidas, dos direitos humanos, universais, indivisíveis e inalienáveis decorre diretamente da dignidade da pessoa, e exige respeito assim dos direitos materiais sem os quais a pessoa humana não vive como, igualmente, da livre conquista do bem espiritual.
A dignidade faz, por fim, que percebamos quanto a profética advertência de São João XXIII, a respeito da universalidade da questão social, se tornou uma realidade irreversível, a exigir cada vez maior integração entre os povos do mundo.
Jornal "O São Paulo", edição 3178, 6 a 12 de dezembro de 2017.

Bioética em tempos de 'pós-verdade’!

Leo Pessini

Pós verdade foi eleita palavra do ano 2016 pelo dicionário 'Oxford', da prestigiosa Universidade de Oxford (Inglaterra) que que anualmente elege uma palavra nova para a língua inglesa. A de 2016 é no original inglês 'post-truth', ou seja 'pós-verdade'.
Em 2015, a palavra escolhida foi um Emoji – mais especificamente, aquela carinha amarela que chora de tanto rir. Na verdade, não é uma palavra, mas uma imagem, de origem japonesa, composta pela junção dos elementos e (imagem) e moji (letra), e é considerado um pictograma ou ideograma, ou seja, uma imagem que transmite a ideia de uma palavra ou frase completa. Atualmente, os Emojis são muito populares nas redes sociais, principalmente no Facebook e em comunicações de troca de mensagens rápidas, como o aplicativo WhatsApp. Já diz o ditado popular que “uma imagem vale mais que mil palavras”. Mas voltemos ao neologismo 'pós-verdade'.
O Dicionário Oxford, além de eleger o termo, definiu 'pós-verdade' como sendo “um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Segundo a Oxford Dictionaries, o termo “pós-verdade” foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano, Steve Tesich, num ensaio para a revista The Nation. Em 2004, o escritor norte americano Ralph Keyes, introduziu-o no título de seu livro “A era da pós-verdade: Desonestidade e decepção na vida contemporânea”. Mas quem mais ajudou para a sua divulgação e popularização mundial foi a revista The Economist, desde quando publicou em setembro de 2016, o artigo 'A arte da mentira'.
Na matéria de The Economist, o mundo teria entrado na 'era política da pós-verdade', especialmente depois que os britânicos ignoraram os alertas sobre o 'Brexit' e votaram por deixar a Comunidade Europeia, e os americanos desprezaram das graves advertências sobre Donald Trump, elegendo-o como Presidente Norte-americano. A tese da revista The Economista é que a pós- verdade se disseminou por culpa da internet e das redes sociais. “A fragmentação das fontes noticiosas criou um mundo atomizado, em que mentiras, rumores e fofocas se espalham com velocidade alarmante”, diz a publicação. “Mentiras compartilhadas online, me redes cujos integrantes confiam mais uns nos outros do que em qualquer órgão tradicional de imprensa, rapidamente ganham aparência de verdade”. Não podemos esquecer uma frase dita pelo chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels: “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”. Entre nós, brasileiros, o escritor Millôr Fernandes, afirmava que “o perigo da meia verdade é você dizer exatamente a metade que é a mentira” (A Bíblia do caos).
O neologismo “pós -verdade” tem sido empregado com alguma constância há cerca de uma década, mas ultimamente houve uma aceleração espantosa no uso desta expressão, que cresceu 2.000% em 2016. O Google registra mais de 20,2 milhões de citações em inglês, 11 milhões em espanhol e 9 milhões em português, somente para termos uma ideia de seu sucesso.
 “Dado que o uso do termo pós-verdade não mostrou nenhum sinal de desaceleração, eu não ficaria surpreso se ‘pós-verdade’ se tornasse uma das palavras definidoras dos nossos tempos”, afirma Casper Grathwohl – Presidente da Oxford Dictionaries. Este novo neologismo, não seria exatamente o culto à mentira, mas a indiferença com a verdade dos fatos. Eles podem ou não existir, e ocorrer ou não da forma divulgada, que tanto faz para as pessoas, pois não afeta os seus julgamentos e preferenciais pessoais consolidadas.
Mas não podemos nunca deixar de buscar a sempre a verdade, pois como nos disse o nosso Mestre, “buscareis a verdade e a verdade vos libertará”.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Por que a internet não deu voz a “legiões de imbecis”

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Alexandre Ribeiro é jornalista, foi editor no Brasil do site católico de notícias Zenit e é atualmente editor do site Aleteia. É membro do Conselho do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-SP.

Um famoso escritor italiano disse que as redes sociais na internet deram voz a “legiões de imbecis que antes só falavam no bar”. Mas será mesmo?
De fato, até pouco tempo atrás, as pessoas conectavam-se umas às outras em lugares físicos de suas vilas ou cidades. Agora, também se conectam pela internet. Mas o fundamento da conexão entre as pessoas não mudou. A sociabilidade é a mesma, só que exercida em estruturas diferentes.
O comportamento social é caracterizado pela atuação recíproca dos indivíduos. O que internet e as redes sociais fizeram foi nada mais do que oferecer à sociabilidade humana uma nova estrutura técnica, baseada na rede mundial de computadores. Assim surgiu a sociabilidade virtual, que é a atuação dos indivíduos, uns sobre os outros, no ambiente digital, realizada por meio do fluxo de comunicação e da troca de informação.
A sociabilidade virtual é formada pelo conjunto dos sinais codificados da comunicação humana nas mídias sociais na internet. Ela integra a ecologia cognitiva do ser humano, enquanto materialização de processos cerebrais e de construções da criatividade humana.
Nesse sentido, a sociabilidade virtual é um instrumento a serviço dos cérebros que a cultivam. Ao favorecer que indivíduos atuem reciprocamente no meio digital, a sociabilidade virtual configura-se como uma propriedade emergente da estruturação do fluxo de comunicação humano em redes de computador.
O surgimento da sociabilidade virtual marca uma nova etapa da sociabilidade humana, em que sistemas técnicos baseados em redes de computador tornam-se acessíveis à efetização de sistemas sociais.
Para o ser humano, o desenvolvimento de sistemas técnicos voltados para a modelagem de sistemas sociais por si só já pode ser considerado um ganho de complexidade. Trata-se de uma nova etapa evolutiva da sociabilidade humana.
O desenvolvimento de novos sistemas técnicos – os mais recentes na hierarquia dos gêneros de sistemas – amplia o potencial de desenvolvimento dos demais gêneros de sistemas (físicos, químicos, biológicos e sociais). Sistemas técnicos podem servir de suporte a sistemas biológicos. Um exemplo disso são as próteses criadas para suprir necessidades e funções de indivíduos sequelados por amputações. No caso dos sistemas sociais, os sistemas técnicos que formam as redes de computador passam a ser o ambiente de emergência da sociabilidade virtual.
O aumento de complexidade dos sistemas sociais – potencial esse favorecido pelo desenvolvimento de sistemas técnicos que ambientam a sociabilidade em redes digitais – poderá culminar na emergência de uma cibernética da sociabilidade virtual simbiótica, cuja função seria a ampliação da complexidade e metaestabilidade da vida social.
Tal sociabilidade virtual simbiótica poderia ambientar, por exemplo, a emergência de mecanismos de exercício político (instância de poder e decisão sobre os sistemas biológicos, como a saúde e o meio ambiente; sistemas econômicos, como as redes de produção; e sistemas culturais, como a educação e o conhecimento).
A simbiose entre sistemas técnicos e sociais somada à sociabilidade virtual simbiótica apresenta-se como possibilidade efetiva de ganho de complexidade e metaestabilidade para o conjunto da vida social.
Essa perspectiva positiva da sociabilidade virtual exige o reconhecimento de que nada está isolado no universo. Tudo que existe é um sistema ou ao menos o componente de algum sistema ao qual está conectado. Ou seja, nada está – e nem nunca esteve – isolado “no bar”.
Jornal "O São Paulo", edição 3177, 29 de novembro a 5 de dezembro de 2017.

A doutrina social e as novas tecnologias

Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

Nosso mundo de novas e revolucionárias tecnologias parece maravilhoso, mas paradoxalmente nos enche de temores. Basta ver como a ficção científica imagina o futuro: robôs inteligentes substituem e dominam os humanos, computadores ganham vontade própria, redes de informação destroem a privacidade e a liberdade das pessoas...
Essa mescla de medo e fascínio se baseia em fatos concretos e não só em projeções alarmistas. Paralelamente aos confortos, aos ganhos econômicos, culturais e científicos,; as novas tecnologias também ameaçam os trabalhadores com o risco do desemprego provocado pela automatização e informatização, surpreendem ao mostrar que todas as nossas atividades (deslocamentos, consultas à internet, necessidades pessoais e profissionais) são monitoradas a partir de nossos telefones celulares e computadores pessoais.
Teria a doutrina social da Igreja algo a dizer a essa situação, tão nova e desafiadora? O Papa Francisco, na Laudato si’, nos dá um primeiro discernimento. Escreve:
“A tecnociência, bem orientada, pode produzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano [...] Não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos [...] dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder econômico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do gênero humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está usando [...] Tende-se a crer que ‘toda a aquisição de poder seja simplesmente progresso, aumento de segurança, de utilidade, de bem-estar, de força vital, de plenitude de valores’ (Romano Guardini), como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do próprio poder da tecnologia e da economia. A verdade é que ‘o homem moderno não foi educado para o reto uso do poder’ (ibidem)” (LS 103-105).
O poder, enquanto capacidade para fazer coisas, é uma coisa boa, um dom dado a nós por Deus. Mas quando degenera em dominação passa a nos ameaçar. Não estamos sendo educados para usar bem o poder, essa é a ameaça das novas tecnologias, não elas, mas a deseducação para usar bem o poder que elas trazem.
Mas como educar para o reto uso do poder? Esse é o caminho de todo esforço educativo da Igreja ao longo dos séculos, basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir.
Jornal "O São Paulo", edição 3177, 29 de novembro a 5 de dezembro de 2017. 

Orfã de Ninguém

Elizabeth Kipman

No final dos anos 90, embora cinco pessoas poderiam ser seus genitores, o mundo inteiro conheceu o caso da menina Jaycee, a órfã de ninguém.
Em 1994, John e Luanne Buzzanca após terem gasto U$200 000 em tentativas para ter um filho, contrataram uma mãe de aluguel por 10 mil dólares. Jaycee nasceu em março/1995; porém, um mês antes, John se divorciara dizendo que nunca quisera ter filho, negando a responsabilidade paterna. Luanne processou John e acabou recebendo a custódia; durante dois anos seguintes, John assumiu pensão para ela e para a menina. Em 1997, Buzzanca conseguiu que o juiz Robert Monarch o livrasse do encargo declarando que ele não era o pai legal; declarou ainda ser a menina, legalmente órfã, porque Luanne não podia também ser considerada mãe legal. Jaycee não tinha vínculos genéticos com o casal Buzzanca, nem com a mãe de aluguel e seus pais genéticos tinham anonimato garantido. Ela passou a existir numa espécie de vácuo. A decisão foi reformada pelo Tribunal de Apelação da Califórnia, sob o argumento de que Jaycee não teria nascido sem o acordo de Luanne e John e que, portanto, era filha legal do casal.
Em 2014, o livro: Not my daugther: A verdadeira história de um ex-narcotraficante e um caso emblemático de maternidade de autoria de John Buzzanca e Paul Lonard apresenta o ponto de vista do pai que contestou sua obrigação de pagar pensão à criança que fora legalmente reconhecida como sua filha.
O tema controverso da Tecnologia de Reprodução Assistida é um exemplo de ciência biológica moderna que está sendo empurrada para o limite ético porque ameaça direitos essenciais como autonomia, informação, igualdade aos recursos para todos os envolvidos.
Considerar os conceitos:
Fertilização in vitro (FIV) heteróloga: terceiros doam os gametas e têm a liberdade legal de resguardar seu anonimato.
Esterilidade e a infertilidade: entendidas como doenças dignas de tratamento no Brasil, conforme o artigo 196 da Constituição Federal que assevera a saúde como direito de todos.
Mas, sobretudo, considerar que a Pessoa concebida sem condições de expressar sua vontade; sem direito à identidade, à informação, ao equilíbrio afetivo, lembrando ainda que a herança genética está ligada ao direito de saúde e à solução de problemas hereditários. No Brasil, o artigo 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente afirma que ela goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, assegurando todas as oportunidades e facilidades para lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.
Um filho não pode ser reduzido a um objeto de desejo, a uma lógica de produto de laboratório de efeitos e resultados. Claro que o fruto da concepção traz a dignidade inerente a toda pessoa humana, porém a Bioética Personalista que parte da visão integral da pessoa e não prioriza apenas a liberdade de quem pode se manifestar; observa que a avaliação ética de um procedimento exige pesar igualmente três fatores: o objetivo, o meio e as consequências. Na técnica da FIV, os meios têm trazido questionamentos quanto às consequências relativas aos direitos da criança concebida, além da grande perda de embriões fecundados que são descartados ou congelados e da própria solidez do relacionamento dos genitores.
No final de seu livro, Buzzanca chama Jaycee a única vítima inocente em tudo isso e expressa a esperança de que ela tenha uma boa vida. Esses votos seriam suficientemente compensadores para Jaycee?
Temos que lutar para encerrar esta sufocante ditadura do pseudo “politicamente correto” e das minorias estridentes.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

As minorias estridentes

Ilustração: Sergio Ricciuto Conte
Ives Gandra da Silva Martins é Professor Emérito das Universidades Mackenzie, UNIP, UNIFIEO, UNIFMU, do CIEE/O ESTADO DE SÃO PAULO, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército - ECEME, Superior de Guerra - ESG e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região; Professor Honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia); Doutor Honoris Causa das Universidades de Craiova (Romênia) e da PUC-Paraná, e Catedrático da Universidade do Minho (Portugal); Presidente do Conselho Superior de Direito da FECOMERCIO - SP; Fundador e Presidente Honorário do Centro de Extensão Universitária - CEU/Instituto Internacional de Ciências Sociais - IICS.

A maioria esmagadora da população, no Brasil, acredita em Deus. É silenciosa, não tem acesso aos órgãos de imprensa, defende valores, abomina a corrupção, adota a visão familiar plasmada na Constituição e não aquela criada pela Suprema Corte, à margem da lei suprema, transformando sociedade civil de pares do mesmo sexo –o que é legítimo— em casamento, o que é juridicamente inconstitucional, por mais que o Supremo declare o contrário. 
Há todo um movimento, hoje, de “fundamentalismo ateu” orquestrado por uma minoria estridente que se infiltrou nos meios de comunicação, nos poderes constituídos e que se esconde atrás da expressão do “politicamente correto”. Assim, age este punhado de ativistas que pretende decidir o que é melhor para o país contra a imensa maioria da população silenciosa. 
Desta forma, a pronuncia de qualquer frase fora do contexto é suficiente para enxovalhar a honra de excelentes cidadãos, muito mais do que a corrupção deslavada e o pisoteio de convicções alheias. Basta dizer que, para tais desfiguradores da moral, é Arte tudo aquilo que possibilite os maiores atentados à cidadania, aos
valores da maioria da população e a Deus, não se admitindo qualquer contestação mais densa contra os desvios destes arautos da desconstrução moral. 
Tenho a impressão de que chegou o momento de a maioria silenciosa manifestar-se, opor-se a esta falsa democracia, em que a minoria que corrói valores impõe a sua visão desagregadora sobre a maioria do povo. Numa democracia, prevalece sempre a vontade da maioria, respeitados os direitos da minoria, mas jamais admitindo que tais direitos minoritários sejam impostos para silenciar as convicções da maioria da população, principalmente no campo da moral individual, familiar e coletiva. 
Temos que lutar para encerrar esta sufocante ditadura do pseudo “politicamente correto” e das minorias estridentes.
Jornal "O São Paulo", edição 3176, 23 a 28 de novembro de 2017.